Faltam respostas para a demência. “Estas pessoas não podem ficar sós”

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Para marcar o Dia Mundial da Doença de Alzheimer, que se assinala este sábado, 21 de setembro, a Renascença foi visitar uma instituição que apoia idosos com demência. Em Portugal há mais de 200 mil pessoas com demência, com 70% delas a sofrerem de Alzheimer. Mas as respostas ao problema, garante a AFID Geração, escasseiam.

A associação pretende colmatar essa falha e prestar apoio a familiares de pessoas com deficiência que frequentemente ficam sozinhas quando mais precisam — na velhice. Sediada em Alfragide, é uma de seis unidades que a Fundação AFID Diferença tem no concelho da Amadora.

A equipa técnica desenvolveu o projeto UNE – Unidade de Neuroestimulação –, já premiado, o que permitiu enriquecer o espaço com a instalação de uma Sala de Snoezelen. O objetivo: retardar a evolução da demência. O projeto é valorizado pelas entidades competentes mas, em 2019, continua à espera de também conseguir a comparticipação da Segurança Social.

“Na nossa ERPI – Estrutura Residencial para Pessoas Idosas – há 63 idosos com mais de 65 anos e quase metade tem problemas demenciais”, diz à Renascença Domingos Rosa, presidente da Fundação AFID. “Não há respostas para este problema tão complicado e estas pessoas não podem ficar sós”.

Foi isso que levou a instituição a definir o apoio à demência como uma prioridade, a investir em equipamentos, meios humanos e formação especializada. Assim surgiu o UNE – Unidade de Neuroestimulação, que recebeu quase 50 mil euros com uma Menção Honrosa nos Prémios BPI Sénior.

“Foi o suficiente para arrancarmos e criarmos uma resposta sustentável”, explica Domingos Rosa. E mesmo sem comparticipação estatal, sublinha, o acesso de pessoas mais carenciadas aos seus benefícios nunca está posto em causa.

Duas dezenas de pessoas em regime de Centro de Dia usufruem desta Unidade de Neuroestimulação e pagam em função dos seus rendimentos.

“Em média pagam 200 euros mensais, mas há quem pague 80 euros e quem chegue aos 400″, explica o diretor de Ação Social, Juvenal Baltazar. A avaliação é feita pela assistente social. À espera de vaga para o UNE há, neste momento, 40 candidatos. Para a residência sénior, a lista de espera ultrapassa os 350.

Além destes 20 “clientes” (a terminologia usada para referir quem paga e usufrui dos serviços), são abrangidas pelo projeto outras 30 pessoas da ERPI que, por esse motivo, têm comparticipação da Segurança Social.

UNE, um sonho real para retardar o progresso da demência

Juvenal Baltazar confessa que ter uma unidade de neuroestimulação para retardar o processo de desenvolvimento da doença era um sonho, agora tornado realidade.

Ajudar as famílias que têm doentes com algum tipo de demência, nomeadamente Alzheimer, e que precisam de continuar a trabalhar e a ter a sua vida pessoal e familiar, mantendo o doente em casa, era outro objetivo.

Por isso, podem estar na AFID Geração entre as 7 da manhã e as 10 da noite, de 2.ª feira a sábado, embora a intensidade de atividades ocorra entre as 10 da manhã e as 5 da tarde.

“A ideia não é que a pessoa fique cá esse tempo todo mas este horário – só possível porque estamos numa ERPI (lar) – dá às famílias uma maior flexibilidade para conseguirem gerir a sua vida e ter aqui o idoso na altura que lhes der mais jeito”, refere este responsável da instituição em conversa com a Renascença.

Para integrar o projeto, há algumas condições: o candidato tem de ter apoio familiar e estar apenas na 1.ª ou 2.ª etapas da demência (já que na 3.ª etapa se torna completamente dependente).

Há três tipos de salas em que o UNE é aplicado. Exercitar a mente é a palavra de ordem. Expressão plástica e outros trabalhos para celebrar datas comemorativas, pequenas leituras, cálculo mental, jogos, sopas de letras são algumas das atividades praticadas numa primeira sala que, no dia desta reportagem, alberga pouca gente sentada e de mãos cruzadas.

Numa segunda sala, a atenção vai para a estimulação cognitiva profunda, orientação no espaço e no tempo ou cálculo mental simples. E finalmente, entramos numa terceira sala em que impera a estimulação sensorial, com o foco no bem-estar dos utilizadores.

É a sala ode estão as pessoas na fase mais avançada da doença e já com uma grande dependência. “Fazem-se jogos com espuma da barba, areia, farinhas ou pedras para estimular o tato; perfumes ou jogos de identificação de aromas para o olfato. Queremos dar-lhes sensações agradáveis mas não podemos escamotear a realidade de perda de competências ligada à evolução da doença”, explica Juvenal Baltazar. Precisam de cuidados 24h/dia e é por isso que estão na ERPI.

O responsável faz questão de sublinhar que as pessoas, independentemente da fase de dependência em que se encontram e sempre que seja possível, são levantadas da cama, trocam o pijama pela roupa diária, são retiradas do seu quarto e participam em atividades. “É uma questão de dignidade e de respeito, gostamos de pensar que seria assim que desejariam ser tratadas, mesmo que já não tenham capacidade para o perceber.”

Para os que podem, há uma saída semanal: à praia, jardins, museus ou simplesmente um almoço ”fora”, o que é muito importante para quem está institucionalizado. E mensalmente (sem excluir a saída dessa semana), o passeio é maior. “Não conseguimos levar todos, mas vão sempre 10-12 pessoas em cadeira de rodas.”

Incentivo à participação das famílias

Cada vez há mais familiares a querer participar nos passeios, adianta.

“Sozinhos se calhar não poderiam levar os idosos, sobretudo quando estão em cadeira de rodas. Assim é possível, acompanham o familiar e ainda podem ajudar os outros.”

O papel das famílias destes idosos é realçado e incentivado pela instituição. “Estimulamos que as famílias levem as pessoas fora: que mantenham o seu cabeleireiro, por exemplo, ou outras atividades exteriores; quando fazem anos, que o levem a jantar fora.”

Caso tal não seja possível, a ERPI facilita a organização de festas no seu espaço, por exemplo. E quem quiser pode, em qualquer altura, ir almoçar com o seu idoso. “Há uma mesa reservada para esse efeito; só têm de se inscrever. Podem vir, participar nas atividades e ver como todos são tratados.”

Sala Snoezelen: a novidade mais “querida” no UNE

Com apenas seis meses, a coqueluche da AFID Geração inicialmente não estava programada para o UNE. Mas o Prémio BPI Senior permitiu à instituição investir 12 mil euros no projeto.

À Renascença, a psicóloga Teresa Reis explica que esta sala é um espaço de relaxamento, por um lado, e de estimulação por outro: com as colunas de água, as fibras interativas que mudam de cor, a cama de água que vibra ao som da música, o cadeirão de relaxamento ou a bola de espelhos e o ecrã onde são projetados diferentes cenários, escolhidos a dedo consoante os grupos.

Em cada sessão de 15 a 20 minutos participam entre 4 e 5 pessoas. Para a que está na cama, a sensação é de relaxamento. Para as que ficam no cadeirão, é de estimulação. “E quem está aqui, normalmente, não quer sair”, refere a psicóloga.

Para Juvenal Baltazar, a Sala Snoezelen tem sido uma mais-valia para a maioria das pessoas com demência, daí considerar que os 12 mil euros já foram recuperados, sobretudo do ponto de vista do bem-estar das pessoas que a têm visitado. “Os custos com a promoção da autonomia são pagos rapidamente e perfeitamente diluídos.”

Em relação ao projeto UNE, em termos globais, o responsável pela Ação Social da AFID também considera que os resultados são positivos. Tendo em conta que a evolução da demência gera sempre degradação do estado físico e psicológico, com o UNE “há, em grande parte dos casos, um crescimento das competências individuais nos primeiros três, quatro, seis meses ou até um ano. Segue-se uma fase de estagnação e finalmente, a redução.”

E apoios, onde estão? Do Governo nada, da Câmara da Amadora sim

A reação ao UNE, da parte dos responsáveis ministeriais e das entidades de Saúde e Segurança Social, tem sido boa, revela Juvenal Baltazar. Mas “tem tudo a ver com a disponibilidade e as opções políticas de financiar e o Governo tem tido outras prioridades”, diz. “Ainda não tomaram as decisões, mas penso que já perceberam a gravidade do problema”, acrescenta esperançoso.

A nível local, por outro lado, a atitude é diferente. “O Plano Estratégico para o Envelhecimento Sustentável do concelho da Amadora elege a demência e a intervenção em demência como uma das grandes prioridades e a Câmara tem estado sempre na linha da frente para responder a esse problema num município com um elevadíssimo índice de envelhecimento, com uma elevada prevalência de demências entre uma população com grandes carências sociais e materiais.”

Juvenal Baltazar não regateia elogios à autarquia liderada pela socialista Carla Tavares, sublinhando o apoio à intervenção e sobretudo à inovação social, sempre em busca de soluções numa rede alargada. E aí, a AFID também é chamada a dar o seu contributo.

Via Rádio Renascença: https://rr.sapo.pt/2019/09/20/pais/faltam-respostas-para-a-demencia-estas-pessoas-nao-podem-ficar-sos/noticia/165329/

Atualizado em 24-Set-2019 | Partilhar:
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